
| | O PENSAMENTO LIBERAL - PARTE 1
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O que é liberalismo
“Nós temos por
testemunho as seguintes verdades: todos os homens são iguais: foram
aquinhoados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis e entre
esses direitos se encontram o da vida, da liberdade e da busca da
felicidade.
Os governos são
estabelecidos pelos homens para garantir esses direitos, e seu justo poder
emana do consentimento dos governados.
“Todas as vezes que uma
forma de governo torna-se destrutiva desses objetivos, o povo tem o
direito de mudá-lo ou de abolir, e estabelecer um novo governo, fundando-o
sobre os princípios e sobre a forma que lhe pareça a mais própria para
garantir-lhe a segurança e a felicidade”.
(Trecho da Declaração
de Independência dos Estados Unidos, de 1776, reflexo na América dos
ideais liberais iniciados pela Revolução Gloriosa em 1688, na Inglaterra)
1. A história
No século XVII, enquanto
o absolutismo triunfa na França, a Inglaterra sofre as revoluções
lideradas pela burguesia, que visam limitar a autoridade dos reis. A
primeira foi a Revolução Puritana, em meados do século em questão,
culminando com a execução do rei Carlos I e a ascensão de Cromwell. Mas a
liquidação do absolutismo se dá mesmo com a Revolução Gloriosa, em 1688,
quando Guilherme III é proclamado rei, após ter aceito a Declaração de
Direitos que limitava muito sua autoridade e dava mais poderes ao
parlamento. Ficava, portanto, o poder executivo subordinado ao
legislativo.
As conquistas burguesas
exigem do rei a convocação regular do parlamento, sem o qual ele não pode
fazer leis ou revogá-las, cobrar impostos ou manter um exército.
Institui-se ainda o habeas corpus a fim de evitar as prisões
arbitrárias; a partir de então, nenhum cidadão pode ficar preso
indefinidamente sem ser acusado diante dos tribunais, a não ser por meio
de denúncia bem-definida.
Tais idéias subvertem as
concepções políticas no século XVII e XVIII. No Novo Mundo, os movimentos
de emancipação das colônias são bem-sucedidos, como a Independência dos
Estados Unidos (1776), enquanto outros são violentamente reprimidos, como
as Conjurações Mineira (1789) e Baiana (1798), ambas no Brasil. Na Europa,
o grande acontecimento é a Revolução Francesa (1789), que, representando a
luta contra os privilégios da nobreza e na defesa dos princípios de
"igualdade, liberdade e fraternidade", depõe a dinastia real dos Bourbon.
2. As idéias
Afinal, que idéias
novas são essas?
Na linguagem comum
costumamos chamar de liberal ao homem generoso, tanto no sentido de não
controlar gastos, como no sentido de não-autoritário. Chamamos também de
profissões liberais as atividades de médicos, dentistas, advogados, quando
trabalham por conta própria. Essa expressão deriva da antiga classificação
das artes liberais, designando as atividades de homens livres, distintas
dos ofícios manuais próprios de escravos.
No entanto, aqui não nos
interessam tais significados da palavra liberal, mas sim aqueles que
indicam o conjunto de idéias éticas, políticas e econômicas da burguesia
que se opunha à visão de mundo da nobreza feudal.
Já nos referimos a
algumas dessas transformações no capítulo anterior, quando tratamos da
formação do Estado nacional e do esforço feito para tomar a política
secular, laica, desligada dos interesses da religião. Mas se em um
primeiro momento a formação das monarquias nacionais necessitava do Estado
forte - o que de certa forma justificou o absolutismo real - a burguesia
reivindicou sua própria autonomia quando se sentiu suficientemente
fortalecida.
O pensamento burguês
busca a separação entre Estado e sociedade enquanto conjunto das
atividades particulares dos indivíduos, sobretudo as de natureza
econômica. O que se quer é separar definitivamente o público do privado,
reduzindo ao mínimo a intervenção do Estado na vida de cada um. Por outro
lado, essa separação deveria reduzir também a interferência do privado no
público, já que o poder procura outra fonte de legitimidade que não seja a
tradição e as linhagens de nobreza.
Podemos nos referir ao
liberalismo ético, enquanto garantia dos direitos individuais, tais como
liberdade de pensamento, expressão e religião, o que supõe um estado de
direito em que sejam evitados o arbítrio, as lutas religiosas, as prisões
sem culpa formada, a tortura, as penas cruéis.
O liberalismo político
constitui-se sobretudo contra o absolutismo real, buscando nas teorias
contratualistas as formas de legitimação do poder, não mais fundado no
direito divino dos reis nem na tradição e herança, mas no consentimento
dos cidadãos. A decorrência dessa forma de pensar é o aperfeiçoamento das
instituições do voto e da representação, a autonomia dos poderes e a
conseqüente limitação do poder central. Veremos que as formas do
liberalismo mudam com o tempo, começando de maneira muito elitista
(restrita aos homens de posse) e ampliando-se a partir de pressões
externas.
O liberalismo econômico
se opôs inicialmente à intervenção do poder do rei nos negócios, que se
dava por meio de procedimentos típicos da economia mercantilista tais como
a concessão de monopólios e privilégios. Os primeiros a se insurgirem
contra o controle da economia foram os fisiocratas, cujo lema era "laissez-faire,
laissez-passer, le monde va de lui-même" ("deixai fazer, deixai
passar, que o mundo anda por si mesmo"). Tais idéias são desenvolvidas
pelos economistas ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo
(1772-1823). O que se pretendia era a defesa da propriedade privada dos
meios de produção e a economia de mercado, baseada na livre iniciativa e
competição. O Estado mínimo, ou seja, o Estado não-intervencionista é
considerado possível porque o equilíbrio pode ser alcançado pela lei da
oferta e da procura. Nem sempre foi possível manter o Estado afastado do
controle da economia.
Exercícios
1 Faça um levantamento
das principais idéias do texto.
2. Em que sentido as
revoluções Gloriosa e Francesa podem ser chamadas de revoluções burguesas?
3. Que mudanças na
política e na economia feudais eram necessárias para implantar a nova
ordem burguesa?
4. O liberalismo tem
como característica a crescente preocupação com a individualidade.
Explique como isto acontece nas formas do liberalismo ético, político e
econômico.
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| | O PENSAMENTO LIBERAL PARTE 2
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Locke
“Sendo os homens por natureza todos livres, iguais e independentes,
ninguém pode ser expulso de sua propriedade e submetido ao poder político
de outrem sem dar consentimento. A maneira Única em virtude da qual uma
pessoa qualquer renuncia à liberdade natural e se reveste dos laços da
sociedade civil consiste em concordar com outras pessoas em juntar-se e
unir-se em comunidade para viverem com segurança, conforto e paz umas com
as outras, gozando garantidamente das propriedades que tiverem e
desfrutando de maior proteção contra quem quer que não faça parte dela”.
Locke
1. Introdução
John Locke (1632-1704),
filósofo inglês, era médico e descendia de uma família de burgueses
comerciantes. Esteve refugiado na Holanda, por ter-se envolvido com
pessoas acusadas de conspirar contra o rei Carlos II. Retomou à Inglaterra
no mesmo navio em que viajava Guilherme de Orange, símbolo da consolidação
da monarquia parlamentar inglesa.
Locke teve papel
importante na discussão sobre a teoria do conhecimento, tema privilegiado
do pensamento moderno a partir de Descartes. A respeito desse assunto
escreveu Ensaio sobre o entendimento humano, onde defende a teoria
empirista. Com a obra Dois tratados sobre o governo civil, tornou-se o
teórico da revolução liberal inglesa, cujas idéias iriam fecundar todo o
século XVIII, dando fundamento filosófico às revoluções ocorridas na
Europa e nas Américas.
2. Estado de natureza e contrato
Assim como Hobbes e
posteriormente Rousseau, Locke parte da concepção individualista, pela
qual os homens isolados no estado de natureza se uniram mediante contrato
social para constituir a sociedade civil. Portanto, apenas o pacto toma
legítimo o poder do Estado.
Mas, diferentemente de
Hobbes, não vê no estado de natureza uma situação de guerra e egoísmo, o
que nos leva a indagar por que os homens abandonariam essa situação
delegando o poder a outrem. Para Locke, no estado natural cada um é juiz
em causa própria; portanto, os riscos das paixões e da parcialidade são
muito grandes e podem desestabilizar as relações entre os homens. Por
isso, visando a segurança e a tranqüilidade necessárias ao gozo da
propriedade, as pessoas consentem em instituir o corpo político.
O ponto crucial do
pensamento de Locke é que os direitos naturais dos homens não desaparecem
em conseqüência desse consentimento, mas subsistem para limitar o poder do
soberano, justificando, em última instância, o direito à insurreição: o
poder é um trust, um depósito confiado aos governantes trata-se de uma
relação de confiança -, e, se estes não visarem o bem público, é permitido
aos governados retirá-lo e confiá-lo a outrem.
3. Sociedade civil: a institucionalização do poder
A concepção de
sociedade civil - ou sociedade política, pois em Locke estes conceitos
ainda não estão separados - representa um aspecto progressista do
pensamento liberal, enquanto destaca a origem democrática, parlamentar do
poder político. Ou seja, o poder está fundamentado nas instituições
políticas, e não no arbítrio dos indivíduos.
Por exemplo, na Idade
Média transmitia-se por herança tanto a propriedade como o poder político:
o herdeiro do rei, do conde, do marquês, recebia não só os bens como
também o poder sobre os homens que viviam nas terras herdadas. Locke
estabelece a distinção entre o público e o privado, que devem ser regidos
por leis diferentes. Assim, o poder político não deve, em tese, ser
determinado pelas condições de nascimento, bem como o Estado não deve
intervir, mas sim garantir e tutelar o livre exercício da propriedade, da
palavra e da iniciativa econômica.
Enquanto Hobbes
destacava a soberania do poder executivo, Locke considera o legislativo o
poder supremo, ao qual deve se subordinar tanto o executivo quanto o poder
federativo (encarregado das relações exteriores). Note-se que ainda nesse
momento não havia sido desenvolvida a teoria da autonomia dos três
poderes, o que ocorrerá apenas com Montesquieu.
4. O conceito de propriedade
Locke usa o conceito de
propriedade num sentido muito amplo: "tudo o que pertence" a cada
indivíduo, ou seja, sua vida, sua liberdade e seus bens.
Como já observamos em
Hobbes, encontra-se também em Locke uma característica que Macpherson
chama de "individualismo possessivo", pelo qual "a essência humana é ser
livre da dependência das vontades alheias, e a liberdade existe como
exercício de posse". Assim, a primeira coisa que o homem possui é o seu
corpo; todo homem é proprietário de si mesmo e de suas capacidades. O
trabalho do seu corpo é propriamente dele; portanto, o trabalho dá início
ao direito de propriedade em sentido estrito (bens, patrimônio). Isso
significa que, na concepção de Locke, todos são proprietários: mesmo quem
não possui bens é proprietário de sua vida, de seu corpo, de seu trabalho.
Entretanto, essa
colocação ampla feita por Locke leva a certas contradições, pois o direito
à ilimitada acumulação de propriedade produz logicamente um desequilíbrio
na sociedade, criando um estado de classes que Locke dissimula -
involuntariamente, é verdade - num discurso que se apresenta com uni
caráter universal.
Quando se refere a
todos os cidadãos, considerando-os igualmente proprietários, o discurso
contém uma ambigüidade que não se resolve, pois ora identifica a
propriedade à vida, liberdade e posses, ora a bens e fortuna
especificamente. O que se conclui é que, se todos, tendo bens ou não, são
considerados membros da sociedade civil, apenas os que têm fortuna podem
ter plena cidadania, por duas razões: "apenas esses [os de fortuna] têm
pleno interesse na preservação da propriedade, e apenas esses são
integralmente capazes de vida racional - aquele compromisso voluntário
para com a lei da razão - que e a base necessária para a plena
participação na sociedade civil. A classe operária, não tendo fortunas,
está submetida à sociedade civil, mas dela não faz parte. [...] A
ambigüidade com relação a quem é membro da sociedade civil em virtude do
suposto contrato original permite que Locke considere todos os homens como
sendo membros, com a finalidade de serem governados, e apenas os homens de
fortuna para a finalidade de governar"'.
Ressalta-se aí o
elitismo que persiste na raiz do liberalismo, já que a igualdade defendida
é de natureza abstrata, geral e puramente formal; não há possibilidade de
igualdade real, quando só os proprietários têm plena cidadania.
Exercícios
1. Dê as características
da teoria contratualista de Locke.
2. Segundo Locke, que
tipo de soberania decorre do contrato? Qual é a relação entre o executivo
e o legislativo?
3. Qual é o sentido
amplo do conceito de propriedade para Locke?
4. Por que se pode dizer
que o liberalismo de Locke é elitista?
5. Estabeleça as
diferenças e semelhanças entre Hobbes e Locke no que se refere aos
conceitos de estado de natureza, contrato social e soberania.
6. Leia a citação de
Locke escolhida como epígrafe da Segunda Parte deste capítulo e
identifique as características do liberalismo.
7. "Poderão afirmar
que, sendo a idolatria um pecado, não pode ser tolerada. Se disserem que a
idolatria é um pecado e, portanto, deve ser escrupulosamente evitada, esta
inferência é correta; mas não será correta se disserem que é um pecado e,
portanto, deve ser punida pelo magistrado. Não cabe nas funções do
magistrado punir com leis e reprimir com a espada tudo o que acredita ser
um pecado contra Deus.” Qual é a característica do liberalismo que se
encontra nesta citação de Locke?
8. Leia o texto
complementar e responda:
a) Como Locke justifica
o abandono do estado de natureza?
b) Quais são os poderes
e as limitações do legislativo?
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| | O PENSAMENTO LIBERAL - PARTE 3
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Montesquieu
A liberdade é o
direito de fazer tudo o que as leis permitem.
Para que não se
possa abusar do poder é preciso que, pela disposição das coisas, o poder
freie o poder.
(Montesquieu)
1. O iluminismo
O século XVIII é
marcado pelo conjunto de idéias do movimento conhecido como Ilustração que
se espalha por toda a Europa (ver na Terceira Parte do Capítulo 10). A
explosão das "luzes" foi preparado nos séculos anteriores com o
racionalismo cartesiano, a revolução científica, o processo de laicização
da política e da moral.
Segundo Kant, um dos
mais notáveis representantes da Aufklärung alemã, o homem
iluminista atingiu a maioridade e, como dono de si mesmo, confia na sua
capacidade racional e recusa qualquer autoridade arbitrária. Exalta a
ciência e deposita esperança na técnica, instrumento capaz de dominar a
natureza. Seu otimismo transparece na convicção de que a razão é fonte de
progresso material, intelectual e moral, o que leva à crença e confiança
na perfectibilidade do homem. Em síntese, pela razão universal o homem
teria acesso à verdade e à felicidade.
A difusão dessas idéias
na França foi facilitada pela ampla produção intelectual dos filósofos
conhecidos como enciclopedistas, tais como Diderot, D'Alembert, Voltaire e
outros, embora, politicamente, a França se encontrasse atrasada com
relação aos avanços do liberalismo inglês, justificado teoricamente pela
doutrina de Locke e levado a efeito pela Revolução Gloriosa ainda em fins
do século XVII.
O absolutismo da
dinastia Bourbon perdura na França até 1789, data da Revolução. Por isso,
durante praticamente todo o século XVIII, os franceses visitam a
Inglaterra para admirar suas instituições e elogiar a liberdade de
consciência reinante.
2. Autonomia dos poderes
Montesquieu (1689-1755)
nasceu perto de Bordéus, na França. Filho de família nobre, o seu nome era
Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e posteriormente barão de
Montesquieu.
Teve formação
iluminista com os padres oratorianos, de modo que cedo se mostrou um
crítico severo e irônico da monarquia absolutista decadente, bem como do
clero. Em Cartas persas, obra de sua juventude, satiriza o rei, o papa e a
sociedade francesa do seu tempo.
Sua obra mais
importante é O espírito das leis, onde discute a respeito das instituições
e das leis, e busca compreender a diversidade das legislações existentes
em diferentes épocas e lugares. A pertinência das observações e a
preocupação com o método permitem encontrar em seu trabalho elementos que
prenunciam uma análise sociológica.
Ao procurar descobrir
as relações que as leis têm com a natureza e o princípio de cada governo,
Montesquieu desenvolve uma alentada teoria do governo que alimenta as
idéias fecundas do constitucionalismo, pelo qual se busca distribuir a
autoridade por meios legais, de modo a evitar o arbítrio e a violência.
Tais idéias se
encaminham para a melhor definição da separação dos poderes, ainda hoje
uma das pedras angulares do exercício do poder democrático. Refletindo
sobre o abuso do poder real, Montesquieu conclui que "só o poder freia o
poder", daí a necessidade de cada poder - executivo, legislativo e
judiciário - manter-se autônomo e constituído por pessoas diferentes.
E bem verdade que a
proposta da divisão dos poderes ainda não se encontra em Montesquieu com a
força que se costumou posteriormente atribuir-lhe. Em outras passagens de
sua obra, Montesquieu não defende uma separação tão rígida, pois o que ele
pretendia de fato era realçar a relação de forças e a necessidade de
equilíbrio e harmonia entre os três poderes.
Embora seu pensamento
tenha sido apropriado pelo liberalismo burguês, as convicções de
Montesquieu se referem aos interesses de sua classe e, portanto, o
aproximam dos ideais de uma aristocracia liberal. Ou seja, ele critica
toda forma de despotismo, mas prefere a monarquia moderada e não aprecia a
idéia de o povo assumir o poder.
Aliás, com exceção de
Rousseau - análise a seguir -, o pensamento liberal do século XVIII
permanece censitário e portanto elitista. Mesmo para o ideal republicano
de Kant, "o empregado doméstico, o balconista, o trabalhador, ou mesmo o
barbeiro não são membros do Estado, e assim não se qualificam para ser
cidadãos". É preciso esperar o século XIX para ver alterações nessa
tendência.
Exercícios
1. Em que sentido a Inglaterra do século XVIII tomou-se um
modelo para a França?
2. Quais são as diferenças e semelhanças entre Locke e
Montesquieu?
3. "Para que não se possa abusar do poder é preciso que,
pela disposição das coisas, o poder freie o poder." Explique o significado
dessa citação de Montesquieu. E discuta também a atualidade dessa
afirmação.
4. Leia os textos complementares e explique em que consiste
a liberdade política para Montesquieu. Relacione com o ideal de
constitucionalismo.
Textos complementares
I - O que é a liberdade
É verdade que nas
democracias o povo parece fazer o que quer; mas a liberdade política não
consiste nisso. Num Estado, isto é, numa sociedade em que há leis, a
liberdade não pode consistir senão em poder fazer o que se deve querer e
em não ser constrangido a fazer o que não se deve desejar.
Deve-se ter sempre em
mente o que é independência e o que é liberdade. A liberdade é o direito
de fazer tudo o que as leis permitem; se um cidadão pudesse fazer tudo o
que elas proíbem não teria mais liberdade, porque os outros também teriam
tal poder.
II - Os três poderes
Quando na mesma pessoa
ou no mesmo corpo de magistratura o poder legislativo está reunido ao
poder executivo, não existe liberdade, pois pode-se temer que o mesmo
monarca ou o mesmo senado apenas estabeleçam leis tirânicas para
executá-las tiranicamente.
Não haverá também
liberdade se o poder de julgar não estiver separado do poder legislativo e
do executivo. Se estivesse ligado ao poder legislativo, o poder sobre a
vida e a liberdade dos cidadãos seria arbitrário, pois o juiz seria
legislador. Se estivesse ligado ao poder executivo, o juiz poderia ter a
força de um opressor.
Tudo estaria perdido se
o mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo,
exercesse esses três poderes: o de fazer leis, o de executar as resoluções
públicas e o de julgar os crimes ou as divergências dos indivíduos.
(Montesquieu, Do
espírito das leis, Col. Os pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973. p.
155-156 e p. 157.)
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| | O PENSAMENTO LIBERAL - PARTE 4
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Rousseau e a democracia direta
O homem nasce livre e em toda parte encontra-se a ferros.
Toda nossa sabedoria consiste em preconceitos servis; todos os nossos
usos são apenas sujeição, coação, e constrangimento. O homem nasce, vive e
morre na escravidão: ao nascer cosem-no numa malha; na sua morte pregam-no
num caixão: enquanto tem figura humana é encadeado pelas nossas
instituições.
(Rousseau)
1. Introdução
Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778), filho de um relojoeiro de poucas posses, nasceu em Genebra
(Suíça) e viveu a partir de 1742 em Paris, onde fervilhavam as idéias
liberais que culminariam na Revolução Francesa (1789).
Desde o primeiro momento
em que se faz conhecer à intelectualidade francesa, Rousseau surpreende:
ganha o prêmio oferecido pela Academia de Dijon ao discorrer sobre o tema
O restabelecimento das ciências e das artes terá contribuído para
aprimorar os costumes? Respondendo pela negativa. Isso significa que não
via com otimismo o desenvolvimento da técnica e do progresso, posição que
é no mínimo polêmica, se lembrarmos que Rousseau vive em pleno Iluminismo
e, portanto, entre homens confiantes no poder da razão humana para
construir um mundo melhor.
Fez amizade com Diderot,
filósofo do grupo iluminista do qual participavam Voltaire, D'Alembert,
D'Holbach, e que se tornaram conhecidos como enciclopedistas por terem
elaborado a Enciclopédia ou Dicionário racional das ciências, das artes e
dos ofícios, que divulgava os novos ideais: tolerância religiosa,
confiança na razão livre, oposição à autoridade excessiva, naturalismo,
entusiasmo pelas técnicas e pelo progresso. Rousseau é convidado a
escrever os verbetes sobre música - sua paixão anterior à filosofia -, mas
sempre foi elemento destoante, pois divergia em muitos aspectos do
pensamento iluminista, e teve, inclusive, sérios atritos com Voltaire.
Precursor do romantismo,
Rousseau valoriza demasiadamente o sentimento, num ambiente sobremaneira
racionalista. Sempre foi um apaixonado, e a forma como expõe suas idéias
revela a carga emocional derivada de uma sensibilidade exacerbada. Os
leitores deixam-se contagiar por esse espírito agitado, e um de seus
admiradores foi Robespierre, representante do setor mais radical e
democrático da Revolução Francesa e que, contraditoriamente, instaurou o
Terror.
As principais idéias
políticas de Rousseau estão nas obras Discurso sobre a origem e os
fundamentos da desigualdade entre os homens e Do contrato social.
Espírito contraditório,
elaborou as bases da pedagogia moderna com a obra Emilio, mas entregou
seus cinco filhos a um orfanato.
2. O estado de natureza
Assim como seus
antecessores Hobbes e Locke, Rousseau procura resolver a questão da
legitimidade do poder fundado no contrato social. No entanto, sua posição
é, num aspecto, inovadora, na medida em que distingue os conceitos de
soberano e governo, atribuindo ao povo a soberania inalienável.
No Discurso sobre a
origem da desigualdade Rousseau cria a hipótese dos homens em estado de
natureza, vivendo sadios, bons e felizes enquanto cuidam de sua própria
sobrevivência, até o momento em que e criada a propriedade e uns passam a
trabalhar para outros, gerando escravidão e miséria.
Rousseau parece
demonstrar extrema nostalgia do estado feliz em que vive o bom selvagem,
quando é introduzida a desigualdade entre os homens, a diferenciação entre
o rico e o pobre, o poderoso e o fraco, o senhor e o escravo e a
predominância da lei do mais forte. O homem que surge da desigualdade é
corrompido pelo poder e esmagado pela violência.
Trata-se de um falso
contrato, esse que coloca os homens sob grilhões. Há que se considerar a
possibilidade de outro contrato verdadeiro e legítimo, pelo qual o povo
esteja reunido sob uma só vontade.
3. O contrato social
O contrato social, para
ser legítimo, deve se originar do consentimento necessariamente unânime.
Cada associado se aliena totalmente, ou seja, abdica sem reserva de todos
os seus direitos em favor da comunidade. Mas, como todos abdicam
igualmente, na verdade cada um nada perde, pois “este ato de associação
produz, em lugar da pessoa particular de cada contratante, um corpo moral
e coletivo composto de tantos membros quantos são os votos da assembléia e
que, por esse mesmo ato, ganha sua unidade, seu eu comum, sua vida e sua
vontade”.
Em outras Palavras,
pelo pacto o homem abdica de sua liberdade, mas sendo ele próprio parte
integrante e ativa do todo social, ao obedecer à lei, obedece a si mesmo
e, portanto, é livre: "A obediência à lei que se estatuiu a si mesma é
liberdade". Isso significa que, para Rousseau, o contrato não faz o povo
perder a soberania, pois não é criado um Estado separado dele mesmo. Como
isto é possível?
Soberano e governo
Mesmo quando cada
associado se aliena totalmente em favor da comunidade, nada perde de fato,
pois, enquanto povo incorporado, mantém a soberania. Ou seja, soberano é,
para Rousseau, o corpo coletivo que expressa, através da lei, a vontade
geral. A soberania do povo, manifesta pelo legislativo, é inalienável, ou
seja, não pode ser representada. A democracia rousseauísta considera que
toda lei não ratificada pelo povo em pessoa é nula.
Por isso, o ato pelo
qual o governo é instituído pelo povo não submete este àquele. Ao
contrário, não há um "superior", já que os depositários do poder não são
senhores do povo, mas seus oficiais, podendo ser eleitos ou destituídos
conforme a conveniência. Os magistrados que constituem o governo estão
subordinados ao poder de decisão do soberano e apenas executam as leis,
devendo haver inclusive boa rotatividade na ocupação dos cargos.
Rousseau preconiza,
portanto, a democracia direta ou participativa, mantida por meio de
assembléias freqüentes de todos os cidadãos.
Enquanto soberano, o
povo é ativo e considerado cidadão. Mas há também uma soberania passiva,
assumida pelo povo enquanto súdito. Então, o mesmo homem, enquanto faz a
lei, é um cidadão e, enquanto a ela obedece e se submete, é um súdito.
Além de inalienável, a
soberania é também indivisível, pois não se pode tomar os poderes
separadamente.
A vontade geral
O soberano, sendo o povo
incorporado, dita a vontade geral, cuja expressão é a lei. O que vem a ser
a vontade geral? E preciso antes fazer distinção entre pessoa pública
(cidadão ou súdito) e pessoa privada.
A pessoa privada tem uma
vontade individual que geralmente visa o interesse egoísta e a gestão dos
bens particulares. Se somarmos as decisões baseadas nos benefícios
individuais, teremos a vontade de todos.
Mas cada homem
particular também pertence a um espaço público, é parte de um corpo
coletivo com interesses comuns, expressos pela vontade geral. Nem sempre o
interesse de um coincide com o de outro, pois muitas vezes o que beneficia
a pessoa privada pode ser prejudicial ao coletivo. Por isso, também não se
pode confundir a vontade de todos com a vontade Real, pois a somatória dos
interesses privados pode ter outra natureza que o interesse comum.
Explicando melhor: "O interesse comum não é o interesse de todos, no
sentido de uma confluência dos interesses particulares, mas o interesse de
todos e de cada um enquanto componentes do corpo coletivo e exclusivamente
nesta qualidade. Daí o perigo de predominar o interesse da maioria, pois
se é sempre possível conseguir-se a concordância dos interesses privados
de um grande número, nem por isso assim se estará atendendo ao interesse
comum.
Encontra-se aí o cerne
do pensamento de Rousseau, aquilo que o faz reconhecer no homem um ser
superior capaz de autonomia e liberdade, entendida esta como a superação
de toda arbitrariedade, pois é a submissão a uma lei que o homem ergue
acima de si mesmo. O homem é livre na medida em que dá o livre
consentimento à lei. E consente por considerá-la válida e necessária.
"Aquele que recusar obedecer à vontade geral a tanto será constrangido por
todo um corpo, o que não significa senão que o forçarão a ser livre, pois
é essa a condição que, entregando cada cidadão à pátria, o garante contra
qualquer dependência pessoal.
4. Rousseau pedagogo
Assim como imagina um
homem em estado de natureza pura hipótese de um ser primitivo que nunca
existiu historicamente -, Rousseau também cria, ao elaborar o esboço de
uma pedagogia, a figura de Emílio, modelo que o ajuda a procurar aquilo
que o homem é antes de ser homem. Tudo se passa nesse romance como se o
homem natural fosse o ideal que se submete à regra da educação.
Para não correr o risco
de ser contaminado por preconceitos, Emílio é educado por um preceptor à
margem do contato pernicioso da sociedade, seguindo a ordem da própria
natureza, não a natureza do selvagem, mas a verdadeira natureza que
responde à vocação humana.
A educação começa pelo
desenvolvimento das sensações, dos sentimentos, pois, antes da "idade da
razão" (15 anos), existe uma "razão sensitiva". É preciso não abafar os
instintos, os sentidos, as emoções, os sentimentos que são anteriores ao
próprio pensamento elaborado. A espontaneidade é valorizada e não há
castigos, pois a experiência é a melhor conselheira. Por isso Rousseau não
dá valor ao conhecimento livresco transmitido, pois quer que a criança
aprenda a pensar por si própria.
E assim que imagina
Emílio chegando por si só às noções de bem e mal e às concepções morais e
religiosas, já que tratar de religião antes do desenvolvimento suficiente
da razão é correr o risco de idolatria.
Costuma-se dizer que
Rousseau provoca uma "revolução copernicana” na educação: tal como
Copérnico, que ao propor a teoria heliocêntrica inverteu o centro do
sistema astronômico, a concepção pedagógica rousseauísta não é
magistrocêntrica, pois não é o mestre que se encontra no centro do
processo educativo; esse lugar é reservado a criança.
Para ele, não se educa a
criança nem para Deus, nem para a vida em sociedade, mas sim para si
mesma: "Viver é o que eu desejo ensinar-lhe. Quando sair das minhas mãos,
ele não será magistrado, soldado ou sacerdote, ele será, antes de tudo, um
homem".
5. Rousseau revolucionário?
A concepção política de
Rousseau, como todo pensamento liberal, é tramada contra o absolutismo,
mas ultrapassa o elitismo de Locke e propõe uma visão mais democrática de
poder. Sem dúvida, empolgou políticos como Robespierre e até leitores como
o jovem Marx.
Os aspectos avançados do
pensamento de Rousseau estão no fato de denunciar a violência daqueles que
abusam do poder conferido pela propriedade, bem como por ter desenvolvido
uma concepção mais democrática de poder, baseada na soberania popular e no
conceito-chave de vontade geral.
Com isso, Rousseau
representará no seu tempo a crítica ao modelo elitista do liberalismo e
antecipa sob alguns aspectos as propostas de solução para as questões
sociais que irão surgir no século XIX.
Mesmo assim, Rousseau
ainda é filho do seu tempo porque, ao partir da tese contratualista, de
certa forma mantém a perspectiva individualista do pensamento burguês; ao
denunciar a violência como resultado da natureza humana corrompida, mantém
ainda a perspectiva de uma análise moral (e portanto pessoal) de um
fenômeno que os teóricos socialistas a ele posteriores perceberão como
resultante dos antagonismos sociais.
6. Conclusão
É bom lembrar que, mesmo
para o próprio Rousseau, o projeto da democracia direta só seria possível
em uma sociedade de reduzi das proporções. No entanto, isso não significa
que suas idéias são desprezíveis e utópicas porque sempre é possível
combinar os mecanismos da democracia representativa com alguns recursos da
democracia direta.
A professora Maria
Victoria de Mesquita Benevides, ao defender a implantação da democracia
semidireta, argumenta que "a maior parte das questões envolvidas na
polêmica democracia representativa versus democracia direta é mal posta,
justamente porque traz implícita a alternativa radical - ou uma ou outra -
e não considera a possibilidade do sistema misto". No sistema misto da
democracia semidireta, os mecanismos típicos de democracia direta atuariam
como corretivos das distorções da representação política tradicional. Tais
mecanismos são os conselhos populares, assembléias, experiências de
autogestão e, na esfera do legislativo, o plebiscito, o referendo e o
projeto de iniciativa popular.
Exercícios
1. Rousseau se refere
ao estado de natureza e pacto social. Isso também aparece em Hobbes e
Locke. Mostre as semelhanças e diferenças nesses três autores:
a) Como é para cada um
o estado de natureza? (Confira também o fragmento 1 do texto complementar)
b) De que
pacto se trata?
c) Qual é o objetivo e o
que visa garantir?
d) Quais são as
decorrências de cada um deles quanto à noção de soberania?
2. O que significa,
para Rousseau, dizer que a soberania é inalienável?
3. Que distinção
Rousseau estabelece entre governo e soberano?
4. Qual a diferença
entre vontade geral e vontade de todos?
5. Rousseau é um dos
precursores da pedagogia moderna. Que inovações ele propõe?
6. Que características
do pensamento de Rousseau o aproximam dos ideais iluministas e quais o
distanciam deles?
7. "A política foi,
inicialmente, a arte de impedir as pessoas de se ocuparem do que lhes diz
respeito. Posteriormente, passou a ser a arte de compelir as pessoas a
decidirem sobre aquilo de que nada emendem." (Paul Valéry)
A partir da citação de
Valéry, responda às questões a seguir:
a) Referindo-se à
história da política, explique quais são as tendências indicadas na
irônica frase de Valéry.
b) Essa desencantada
observação pode ser relacionada com a afirmação corriqueira de que "o povo
não sabe votar". Critique as duas frases usando para tanto os conceitos
aprendidos com Rousseau.
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| | O PENSAMENTO LIBERAL - PARTE 5
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O liberalismo do século XIX
Cada um é o único guardião autêntico da própria saúde, tanto física,
quanto mental e espiritual. (Stuart Mill)
No século XIX, as
exigências democráticas não eram apenas da nova classe dos burgueses, mas
também dos operários, cujo número crescia consideravelmente, já que a
Revolução Industrial (século XVIII) aumentara a concentração urbana. Os
operários, organizados em sindicatos e influenciados por idéias
socialistas, exigem melhores condições de trabalho.
As novas formas de
organização de massa dão a tônica do pensamento político do século XIX,
que pretende se configurar como liberalismo democrático. O enfoque da
liberdade baseada na propriedade - característica do liberalismo elitista
dos séculos anteriores - é desviado para a exigência de igualdade,
procurando estender a liberdade a um número cada vez maior de pessoas por
meio da legislação e de garantias jurídicas.
As reivindicações de
igualdade se manifestam das mais variadas formas:
§
na defesa
do sufrágio universal, ampliação das formas de representação (partidos,
sindicatos), pressões para reformas eleitorais;
§
na
exigência de liberdade de imprensa;
§
na
implantação da escola elementar universal, leiga, gratuita e obrigatória,
cuja luta se torna bem-sucedida na Europa e nos EUA.
No entanto, não há como
negar que o liberalismo nasceu não-democrático, na medida em que sempre
desconfiou do governo popular, sustentando o voto censitário pelo qual
excluía do poder os não-proprietários.
No século XIX podemos
notar claramente os dois sentidos do movimento que até hoje dilacera o
pensamento liberal: a permanência do liberalismo conservador que defende a
liberdade, mas não a democracia (ou seja, não é um liberalismo com
aspirações igualitárias); e o liberalismo radical que, além da liberdade,
defende a igualdade. É este último liberalismo que, nas formas mais
extremas, se aproxima, no século XX, das concepções do Estado de bem-estar
social e do socialismo liberal.
Os Principais teóricos
do liberalismo no século XIX foram:
§
nos
Estados Unidos - Thomas Jefferson e Thomas Paine;
§
na França
- Tocqueville;
§
na
Inglaterra - Jeremy Bentham, James Mill e seu filho John Stuart Mill.
2. O liberalismo francês
Enquanto na Inglaterra e
nos Estados Unidos as instituições políticas e sociais consolidam
pacificamente os ideais liberais, a França passa no século XIX por
experiências difíceis e contraditórias, após a esperança de "liberdade,
igualdade e fraternidade" representada pela Revolução Francesa. Afinal, o
jacobinismo de Robespierre declaradamente ultra democrático havia
descambado no Terror; depois disso houve a ascensão e queda de Napoleão
Bonaparte, coroado imperador. Mais tarde, com Napoleão III, a França entra
no Segundo Império, distanciando-se cada vez mais dos ideais democráticos.
Era natural que surgissem liberais conservadores, temerosos da tênue
separação existente entre democracia e tirania.
Aléxis de Tocqueville
(1805-1859), aristocrata de nascimento e conhecido como o "Montesquieu do
século XIX", soube analisar com lucidez espantosa as contradições do seu
tempo. Visitou por um ano os Estados Unidos, onde recolheu informações
para sua obra mais famosa, Democracia na América.
Tocqueville tinha plena
consciência de que a implantação da democracia era inevitável, mas
lastimava essa tendência que, segundo ele, levaria ao risco da "tirania da
maioria", a um nivelamento cuja conseqüência seria o despotismo e ao
conformismo da opinião. A democracia faria prevalecer a força do número
sobre a individualidade.
Tocqueville admitia
claramente o desprezo pelas classes médias, o que constituía um traço
aristocrático da visão de mundo daquele nobre senhor de terras. Em uma
anotação pessoal exprimia: "Tenho pelas instituições democráticas uma
preferência cerebral, mas sou aristocrata por instinto, e isto significa
que desprezo e temo a multidão. Amo apaixonadamente a liberdade, a
legalidade, o respeito pelos direitos, mas não a democracia"'.
O intelectual brasileiro
José Guilherme Merchior diz o que significa para Tocqueville a palavra
democracia: "Algumas vezes, ele empregou o termo em seu sentido político
normal, de um sistema representativo fundado num amplo sufrágio. Mas, com
mais freqüência, o empregou como um sinônimo para sociedade igualitária,
coisa com que ele não designava uma sociedade de iguais, mas uma sociedade
em que a hierarquia já não era a regra do princípio aceito de estrutura
social".
3. O liberalismo inglês
Jeremy Bentham
(1748-1832) é o fundador de uma escola chamada utilitarismo. Sofrendo a
influência empirista, a teoria utilitarista pretende ser um instrumento de
renovação social, a partir de um método rigorosamente científico.
Bentham substitui a
teoria do direito natural, típica dos filósofos contratualistas do século
anterior, pela teoria da utilidade: o cidadão só deve obedecer ao Estado
quando a obediência contribui para a felicidade geral. Critica as formas
liberais que levam ao egoísmo. Aliás, para ele, o objetivo da moral é o
controle do egoísmo, e a virtude é o que amplia os prazeres e diminui as
dores, donde resulta uma "aritmética moral": é preciso fazer um cálculo
entre duas ações para saber qual delas reúne maior número de prazeres e
menor quantidade de dores. Da mesma forma, o governo deve concordar com o
princípio de utilidade, e sua finalidade é alcançar a felicidade para um
número maior de pessoas.
Por isso os objetivos do
governo são: prover a subsistência, produzir a abundância, favorecer a
igualdade e manter a segurança. Para tanto é necessário que haja eleições
periódicas, sufrágio livre e universal, liberdade de contrato.
Bernham também se tornou
conhecido por ter imaginado o Panopticon (que significa "ver
tudo"), construção com uma torre de controle central e um prédio cheio de
janelas onde seriam confinadas pessoas que precisariam ser vigiadas
constantemente, tais como loucos, doentes, condenados, operários ou
estudantes. Michel Foucault, filósofo francês contemporâneo, em sua obra
Microfísica do poder identifica o projeto de Bernham ao processo iniciado
na Idade Moderna pelo qual é constituída a "sociedade disciplinar",
baseada no controle e vigilância na fábrica, na escola, na prisão, no
hospício, no exército, e que tão bem irá caracterizar a forma de poder
pela qual a burguesia exerce sua hegemonia.
John Stuart Mill
(1806-1873) segue inicialmente a corrente utilitarista, na qual foi
iniciado por seu pai, James Mill, mas a modifica profundamente, já que
sofreu outras influências, desde o positivismo de Comte ao socialismo de
Saint-Simon.
Embora amigo e admirador
de Tocqueville, Stuart Mill desenvolve o liberalismo na linha de aspiração
democrática. Preocupa-se com o destino das massas oprimidas e defende a
co-participação na indústria bem como a representação proporcional na
política a fim de permitir a expressão das opiniões minoritárias. Foi
acirrado defensor da absoluta liberdade de expressão, do pluralismo e da
diversidade, e considerava importante o debate das teorias conflitantes.
Com a influência de sua
mulher, Harriet Taylor, feminista e socialista, participou da fundação da
primeira sociedade defensora do direito de voto para as mulheres.
4. As contradições do século XIX
Embora as teorias
liberais do século XIX, em comparação com as anteriores, representem um
avanço em direção às idéias de igualdade, surgem inúmeras contradições.
Nem sempre a implantação das idéias liberais consegue conciliar os
interesses econômicos aos aspectos éticos e intelectuais que essas mesmas
teorias defendem.
Nos grandes centros da
Europa, apesar da difusão das idéias democráticas, permanecem sem solução
questões econômicas e sociais que afligem a crescente massa de operários:
pobreza, jornada de trabalho de quatorze a dezesseis horas, mão-de-obra
mal paga de mulheres e crianças.
Da mesma forma, a
expansão do capitalismo estimula as idéias imperialistas que justificam a
colonização da África e da Ásia e por isso os países europeus
"democráticos" não querem abrir mão do controle econômico e político sobre
suas colônias. 0 próprio Stuart Mill argumentava que a idéia de governo
democrático se ajustava apenas aos hábitos dos povos avançados, sobretudo
os brancos.
No Brasil, os movimentos
liberais naquele período se restringem à luta pela liberalização do
comércio que deseja sacudir o jugo do monopólio. Mas permanece ainda a
sociedade escravista, a tradição das elites e o analfabetismo, inclusive
como condição para a manutenção do tipo de economia agrária.
A contrapartida do
discurso liberal será encontrada nas teorias socialistas, representadas
inicialmente pelos chamados socialistas utópicos e, depois, pelo
socialismo científico de Marx e Engels, que, em 1848, publicaram o
Manifesto comunista. Do mesmo modo, as Internacionais Operárias (a
primeira é de 1864) e a Comuna de Paris (1871) são reflexo da busca de uma
nova ordem, distinta da ordem estabelecida, e de um discurso que contenha
a crítica ao Estado burguês.
Exercícios
1. Qual a diferença entre o panorama histórico que marca o
pensamento de Locke e o que marca o pensamento liberal do século XIX?
2. Como as diferenças históricas referidas na primeira
questão refletem nas concepções políticas de Locke e Stuart Mill?
3. Compare Stuart Mill e Tocqueville, considerando a
distinção entre as diversas concepções de liberalismo.
4. As duas frases a seguir são de Stuart Mill. Analise o
significado delas, indicando inclusive por que são contraditórias.
"Cada um é o único guardião autêntico da própria saúde,
tanto física, quanto mental e espiritual."
"O despotismo é uma forma legítima de governo quando se
está na presença de bárbaros, desde que o fim seja o progresso deles e os
meios sejam
adequados para
sua efetiva obtenção."
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